sábado, 4 de dezembro de 2010

Guerra um sonho de estudante

Quando eu entrei para a faculdade, no final da década de 80, eu tinha dois sonhos: queria fazer matérias de ecologia, viajando o mundo todo, vendo de perto animais, plantas, etc. Um outro sonho era ser correspondente de guerra. Me via nas grandes coberturas como as guerras do Iraque, Afenganistão, etc. Eu sempre via os coleguinhas no front de guerra e me imaginava no lugar deles. Me formei, o tempo foi passando e a realidade do jornalismo no Rio foi me empurrando para outras coisas... o sonho foi desaparecendo na realidade das redações, das chefias, da Cidade nervosa que engolia e acaba um pouco com o sonho da recém formada.

De ecologia, pouco fiz. Muito poucas matérias. Bom de guerra......Fui jogada na realidade nua e crua do Rio de Janeiro e acabei me especializando em "polícia" agora "jornalista da área de segurança pública" . E foi assim que fiz um curso de sobrevivência em áreas hostis em 2006 na Argentina, onde tive contatos com situações que lembravam uma guerra. Bom, dez dias de curso, cantil na cintura, máscara anti-gas,rapel, conhecimento de armas de guerra, sobrevivência na selva, longos percursos a bordo de um tanque de guerra e..........de volta à redação e à cobertura diária da segurança pública.

De 2006 para cá, quatro anos e a situação foi ficando difícil no Rio.  Bandidos nas ruas, queimando carros, ônibus, queimando veículos de trabalhadores. Bandidos armados de fuzis se dizendo os donos de territórios e implantando o terror no Rio de Janeiro. A situação chegou ao limite. No limite para mim, no limite para os moradores dessa Cidade Maravilhosa, no limite, até que enfim para os governantes. No limite para aquele senhor gaúcho de voz mansa, ar sério de quem sabe o que quer e o que faz. Bom e ele fez.

Enfim, no dia 25 de novembro, numa manhã de sol, lá estava eu: Meu sonho estava se realizando. Tanques na rua, homens de preto, de verde oliva, tanques de guerra, oficiais dando ordens. Uma avenida movimentada fechada e tomada por fuzis. No alto do viaduto mais um carro pegando fogo. Ato terrorista de bandidos que faziam de trechos dos bairros da Leopoldina seus verdadeiros castelos subjulgando toda uma população de trabalhadores, moradores de bem.

Era como se fosse o dia D.Imprensa mundial falando, transmitindo ao vivo. Os tanques desceram dos caminhões, homens de preto e verde oliva se prepararam dentro dos tanques. Foi como se um ofiical tocasse um apito e desse um ok. Era quase meio dia. Foi dado o sinal de partida. E lá se foram os tanques. Tiros do alto do morro, tensão da imprensa, tensão dos fotógrafos e cinegrafistas que queriam fazer a melhor cobertura. Carros, ônibus, motocicletas e caminhões incendiados por bandidos meio que para proteger o bunker desses narcotraficantes. A guerra havia começado.

E o cenário foi se formando. BAndidos apavorados fugiram para a favela ao lado pelo morro. Imangens ao vivo transmitindo o ato "medroso" e "covarde" desses caras que só tinham poder com fuzis nas mãos. E o campo foi avançando. Os homens de preto, os homens de verde oliva camuflado e os tanques foram tomando toda a situação. Ganharam terreno na Vila Cruzeiro e como em uma "avalanche" foram tomando terreno em direção ao Alemão.

Domingo de sol, sete e meia da manhã, era como se fosse final de Copa do Mundo. Mais homens de preto, homens de verde oliva, tanques, homens de camisetas cinza da polícia civil. Cenário pronto. Oito horas todos sobem. Ganharam o jogo de WO. E eu estava lá, de colete à prova de balas. Carro blindado. Eu subi a Vila Cruzeiro. Eu subi o Alemão.

Enfim, o meu sonho de jornalista de guerra, de correspondente de guerra acabou se concretizando na Cidade em que nasci, que cresci e que amo morar. Fui correspodente de guerra no Rio de Janeiro. Uma guerra que não pedi, uma guerra que o bom carioca jamais pensou em ter mas que se tornou necessária. Depois desse domingo 28 de novembro, o qual tive o prazer e o privilégio de participar da cobertura, acho que nossa Cidade passou a ser outra. Enfim SOU AGORA UMA CORRESPONDENTE DE GUERRA.

Do sonho da estudante da faculdade de jornalismo? Falta viajar fazendo matérias de meio ambiente.

Um comentário:

Eliane disse...

Oi, Claudinha. Tinha o mesmo sonho na época da faculdade... Também me senti realizada quando entrei várias vezes ao vivo no telejornal, narrando o começo de tudo naquele dia 25. Data marcante para a cidade e para mim, por diversos motivos. Que venham outras, se necessário. Certeiras e bem-sucedidas. Jornalistas cariocas estão prontos.